Há algo de profundamente errado quando uma mulher me procura e diz:
“Doutora, desde que engravidei, começaram a me tratar mal.”
O que deveria ser um momento de alegria e proteção vira, para muitas trabalhadoras, um período de medo e constrangimento. Algumas empresas transformam consultas médicas e atestados em motivo de cobrança velada, com comentários como: “De atestado de novo?” ou “Médico outra vez?”. Palavras assim não são apenas inconvenientes — elas carregam desprezo, reforçam o isolamento e violam a dignidade da gestante.
E não estamos falando de casos raros.
Pesquisas revelam um padrão preocupante: segundo a FGV, muitas mães são demitidas logo após o término da estabilidade gestacional (1). Outro levantamento aponta que 56% das mulheres já foram desligadas ou conhecem alguém que perdeu o emprego depois da licença-maternidade (2).
Esses números desmontam qualquer tentativa de justificar a situação como “coincidência”. O que vemos é um paradoxo cruel: um país que se apresenta como defensor da vida, mas que pune e marginaliza as mulheres justamente por gerarem essa vida.
Não se trata apenas de uma questão trabalhista — é um reflexo de como a sociedade ainda enxerga a maternidade como obstáculo, e não como valor. É preciso dizer com todas as letras: não há crescimento econômico sustentável, não há renovação social, sem mães e sem crianças.
No plano jurídico, esse comportamento afronta diretamente princípios constitucionais como:
- Dignidade da pessoa humana (art. 1º, III);
- Proteção à maternidade e à infância (arts. 6º e 7º, XVIII);
- Igualdade e não discriminação (art. 5º, caput).
A Justiça do Trabalho e os órgãos públicos têm o dever de agir: fiscalizar, punir e conscientizar. Mas também é preciso um movimento social mais amplo, que recuse o silêncio diante dessa crueldade disfarçada de “prática empresarial”.
Porque, no fim das contas, quando uma empresa discrimina uma gestante, não está apenas ferindo um contrato de trabalho — está atacando o futuro que essa mulher carrega no ventre.
Fonte:
(1)https://secfloripa.org.br/50-das-maes-sao-demitidas-ate-dois-anos-apos-licenca-diz-fgv/
Excelente!! Você é excepcional
Que posicionamento incrível, Doutora! A gestação por si só já é um turbilhão de sentimentos nem sempre bons para as mulheres, e sem dúvidas essas pressões no trabalho pioram mais ainda a situação. Muito bom ter uma profissional como você para indicar para pessoas que precisem! 🙏🏽❤️
Muito bom
O tema é um alerta importante para as empresas. É fundamental que os líderes e gestores entendam que a maternidade não é um obstáculo, mas sim um momento importante na vida das mulheres, das famílias e também para a sociedade. A discriminação contra gestantes e mães no ambiente de trabalho não apenas viola direitos constitucionais, mas também afeta negativamente a reputação das empresas.
Nesse momento é necessário que as empresas e seus gestores deixem de olhar apenas para a produtividade de sua equipe e tenham responsabilidade social, cuidar do seu colaborador é também cuidar do sucesso de seu negócio.
Medidas que as empresas podem tomar para melhorar essa questão:
• Implementar políticas que apoiem as mães e gestantes.
• Treinamento e conscientização, oferecer treinamento e conscientização para os funcionários sobre a importância da igualdade e não discriminação no ambiente de trabalho.
• Apoio à saúde mental, oferecer apoio à saúde mental das gestantes e mães, incluindo acesso a serviços de saúde mental e apoio emocional.
• Cultura empresarial, fomentar uma cultura empresarial que valorize e apoie as mães e gestantes, reconhecendo a importância da maternidade para a sociedade.
Ao adotar essas práticas, as empresas podem criar um ambiente de trabalho mais inclusivo e apoiador, o que pode levar a uma maior satisfação e produtividade dos funcionários, além de melhorar a cultura e os valores da empresa.
Parabéns pelo texto e abordagem, Dra.